Ao filho que não veio e se foi: eu te reconheço

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filho

A primeira vez que sonhei com você, filho, você tinha olhos azuis e um cabelo bem preto.

Olhava para mim com os olhos abertos e atentos, este sonho era sobre um filho que esta presente hoje apenas em memória.

Eu não pude ouvir seu coração bater e nem olhar para sua imagem em um ultrassom. Não deu tempo. Sua passagem foi rápida, fisicamente indolor e ninguém se deu conta, menos eu.

Em meus sonhos não era um filho, e sim uma filha. Nunca terei certeza.

Nunca pude te ver, tocar e embalar em meus braços. Te ví em um sonho e te carreguei por muito pouco tempo. Uma menina com grandes olhos azuis como os do pai e um cabelo preto como os meus. Pelo menos, era essa minha imagem de você. Fico com a beleza deste sonho, já que tive tão pouco.

Você teria 5 anos e alguns meses hoje. E um irmão de 4 anos e 9 meses amoroso e gentil.

Por muitos anos, os que passei cuidando de seu irmão com todo o amor que eu tenho para dar, deixei sua lembrança de lado. Não chorei sua partida, não pude sequer percebe-la e quanto pedi uma confirmação a médica, ela te negou a mim. Disse que não era nada. Que continuaríamos tentando a partir dali.

Era algo para mim. O filho que não veio e se foi.

Pouco tempo depois, a certeza do nascimento do seu irmão, me fez aquecer meu coração e depositar ali todo o amor que não pude te dar. Ele recebeu em dobro todos estes anos e assim continuará. Imagino que você jamais iria querer algo diferente disto.

Apesar do amor em dobro depositado ao filho que veio e ficou, eu preciso dizer, algo a muito tempo preso em meu coração. Algo que foi calado mas que hoje se liberta: eu te reconheço.

Você provavelmente teria sido questionadora como eu. Gentil e sensível como seu pai. Teria muito em comum com seu doce irmão. Provavelmente…

Os olhos atentos que me olhavam em sonho, tão fixos em mim, queriam me dizer algo. Na época eu não entendi. Era “oi, estive aqui, mas logo vou partir…”

Eu não consigo esquecer aquela imagem, aquele sonho. Todos os outros foram esquecidos de um dia para outro, já este, fazem mais de 4 anos, continua claro como água límpida. Uma bela imagem, uma bebê linda.

Eu estava dormente. Mãe de primeira viagem que era, sequer sabia o que sentir. Eu acreditei que devia deixar de lado, fingir que nada aconteceu. Eu pensei que passaria e que o tempo me faria esquecer. Mas aqui estou, pra te dizer que em todo este tempo, lá no fundo, ali estava você. Como uma lembrança que não queria partir.

O luto do aborto é algo que as pessoas não querem falar ou sentir. Elas tentam nos convencer que não era nada. Todos estes, estão errados. É muito. As vezes intangível como o meu, mas muito.

Um muito que a gente tenta esquecer, tenta não comentar e nem reconhecer.

Levou cinco anos, para que eu reconhece-se este filho. Ou filha.

Não pense você que era por não te querer. Na verdade eu queria tanto, estava tentando tanto, que quando você veio e não pode ficar, foi punida com o não reconhecimento. Da médica e meu. Prática como sou, focada como sou, só pensei em seguir em frente.

Uma parte de mim hoje me diz, que eu deveria ter parado naquele momento e dado a você a devida atenção. Ter chorado sua partida e a reconhecido como o alguém que por pouco tempo você foi e continuará sempre sendo em meus pensamentos.

Por anos eu empurrei sua memória para debaixo dos meus tapetes. A escondi em uma caixinha guardada a sete chaves. Não ousei falar sobre você.

Mas agora chega. Eu era uma mãe que acabará de nascer, eu não tinha crescido. Eu cresci e aprendi: não fujo mais da sua memória, de quem você poderia ter sido, de quem um dia você foi. Eu te reconheço.

Para todas as emoções incompreensivelmente misturadas que carreguei por todos estes anos, uma é certa: este é meu luto. Minha pequena e singela homenagem.

Eu não me sinto triste. Eu não sinto que me falta. O que me faltava, era a memória reconhecida de quem não veio e se foi. Me faltava entender a realidade. Você foi real. Por muitos anos eu pensei que não, que era apenas um sonho. Aquele, da menina de olhos azuis e cabelos pretos.

Eu não lamento, eu entendo o curso da vida, o sentido que o universo deu a minha.

Você me fez mãe e existe hoje nas minhas mais doces e sinceras memórias. Eu não vou seguir pensando em você e nem chorando por você, eu sei que não é isso que você esperaria de mim. Eu vou seguir feliz como sempre estive, mas te reconhecendo.

E digo isto porque sei que se você tivesse ficado, seu irmão talvez não teria vindo. E aqui esta ele, carregando meu coração em suas pequenas mãozinhas. Todos os dias.

Eu te reconheço, filha. Um dia, você também foi minha.

Um beijo,

Mamãe

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